A Confederação Nacional da Indústria (CNI) reduziu nesta quarta-feira (28) a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto brasileiro em 2026 de 2% para 1,6%. A revisão reflete, segundo a entidade, um cenário menos favorável para a indústria e para os serviços em um ambiente de juros ainda elevados.
A indústria de transformação concentra o pior recuo: a CNI projeta queda de 0,7% no ano. O diagnóstico combina retração da demanda interna, custo do crédito alto, aumento de custos e concorrência de produtos importados.
“Quem está mais dependente do mercado interno está sendo muito afetado por conta da taxa de juros”, afirmou Mario Sergio Telles, diretor da CNI, em comunicado.
Nos serviços, a expectativa de alta caiu de 1,9% para 1,6%. A entidade nota que o volume do setor segue praticamente estável desde o ano passado, com desaceleração no comércio varejista. A construção manteve expansão prevista de 1,5%, sustentada por infraestrutura e pelo Minha Casa, Minha Vida.
A agropecuária foi o único setor produtivo com revisão positiva, de 1,8% para 2,5%, puxada pela segunda safra de milho. A indústria extrativa deve crescer 9,1%. No exterior, a CNI estima superávit comercial de US$ 77,3 bilhões — alta de quase 30% —, com exportações de US$ 386,7 bilhões apoiadas em commodities.
Dívida, inflação e emprego no radar da entidade
No quadro fiscal, a dívida pública bruta deve subir de 78,6% para 83,7% do PIB em um ano. A CNI prevê déficit primário real de R$ 54,6 bilhões (0,4% do PIB), embora exceções fiscais apontem superávit oficial de R$ 12,6 bilhões.
Para a inflação, a entidade vê o IPCA em 5,15% no fim de 2026, pressionado por alimentos, serviços e preços administrados — o que, na leitura da CNI, justifica um ritmo mais lento de redução dos juros. O mercado de trabalho, por outro lado, segue aquecido: desemprego projetado em 5% no fim do ano e massa salarial real em alta de 4,6%.
Selic em 13,75% e Copom na próxima semana
A taxa básica está em 13,75% ao ano. A CNI prevê dois cortes de 0,25 ponto até o fim de 2026, o que levaria a Selic a 13,25% — cerca de 9% de juros reais, na conta da entidade. A próxima decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) é na quarta-feira (4).
No Boletim Focus divulgado na segunda-feira (26) — pesquisa com cerca de cem instituições, concluída antes do segundo turno —, o mercado manteve a mediana da Selic em 13,25% no fim de 2026 e também espera dois cortes de 0,25 ponto em novembro e dezembro. A mediana do PIB no Focus está em 1,80% para 2026; a do IPCA, em 5,19%.
O pós-eleição muda o tom de parte do mercado
Depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, economistas passam a avaliar se o ciclo de cortes sobrevive à alta do dólar. Samuel Pessoa, da FGV Ibre, espera Selic estável em 13,75% nas próximas duas reuniões: com continuidade da política econômica, a inflação demoraria mais a cair, e o câmbio mais fraco teria gerado choque de preços.
Milena Landgraf, da Jubarte Capital, também defende estabilidade na reunião da próxima semana. Para ela, o dólar deve pressionar as expectativas de inflação nas próximas edições do Focus, e a trajetória dos juros depois disso dependerá sobretudo dos sinais do governo sobre ajuste fiscal e dívida. Ela cita ainda riscos para 2027 ainda pouco incorporados às projeções, como efeitos da escala 6×1 e da reforma tributária.
Em outras palavras: a CNI desenha crescimento mais fraco com juros altos; o Focus ainda precifica cortes graduais; e parte do mercado, após a eleição, já discute a hipótese de o Copom pausar.
O que isso muda no bolso
Para quem investe sem ser profissional, o ponto central não é “PIB caiu, então vende tudo”. É que o custo do dinheiro deve permanecer alto por mais tempo do que muita gente esperava no início do ciclo de cortes. Reserva e aplicações de renda fixa com liquidez — como o Tesouro Selic em comparação com a poupança — tendem a continuar relevantes; antecipar um corte de Selic como se já tivesse ocorrido — ou mudar de estratégia só por uma revisão de projeção — costuma ser o erro. Nada disso é recomendação de compra ou venda de ativo específico.
Fontes: comunicado/dados da CNI (28/10/2026); Boletim Focus do Banco Central (26/10/2026); declarações a O Globo (Samuel Pessoa / FGV Ibre; Milena Landgraf / Jubarte Capital).
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