“Deixo na poupança ou coloco no Tesouro Selic?” é provavelmente a pergunta mais comum de quem está tirando o dinheiro da conta corrente pela primeira vez. Os dois são simples, seguros e permitem sacar quando você precisar. Mas eles rendem de jeitos diferentes, têm custos diferentes e funcionam melhor em situações diferentes.
Este guia explica as regras de cada um, faz uma conta concreta lado a lado e mostra em quais casos a poupança ainda faz sentido. A ideia não é dizer o que você deve fazer, e sim dar um método para você decidir sozinho.
Como a poupança rende
O rendimento da poupança é definido por lei e depende da taxa Selic, a taxa básica de juros do país. Para depósitos feitos a partir de 4 de maio de 2012, a regra é:
- Selic acima de 8,5% ao ano: a poupança paga 0,5% ao mês mais a TR (Taxa Referencial). Isso dá cerca de 6,17% ao ano, mais a TR.
- Selic igual ou abaixo de 8,5% ao ano: a poupança paga 70% da Selic mais a TR.
Depósitos antigos, feitos antes de maio de 2012, seguem a regra anterior: sempre 0,5% ao mês mais TR, independentemente da Selic.
Três detalhes fazem muita diferença na prática:
- Rende só no “aniversário”. O dinheiro rende uma vez por mês, na data do aniversário do depósito. Se você deposita no dia 10 e saca no dia 9 do mês seguinte, aquele valor não rendeu nada.
- É isenta de imposto de renda para pessoa física. O que aparece de rendimento é o que fica com você.
- Tem garantia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) até R$ 250 mil por CPF por instituição, dentro das regras do fundo.
Repare que, com a Selic alta, a poupança fica “travada” em cerca de 6,17% ao ano mais TR. Ela não acompanha a Selic para cima. É exatamente aí que a comparação com o Tesouro Selic fica interessante.
Como o Tesouro Selic funciona
O Tesouro Selic é um título público: você empresta dinheiro para o governo federal e recebe, em troca, uma remuneração atrelada à Selic. Ele é comprado pelo Tesouro Direto, por meio de uma corretora ou banco habilitado. Os pontos principais:
- Rendimento: acompanha a Selic do período, rendendo em todo dia útil. Às vezes o título é negociado com uma pequena diferença de preço (ágio ou deságio), mas, para quem está começando, a referência é “rende perto da Selic”.
- Liquidez: pode ser vendido em qualquer dia útil. Pela regra atual do Tesouro Direto, resgates pedidos das 9h30 às 13h caem na conta no mesmo dia; depois disso, no dia útil seguinte.
- Imposto de renda: incide sobre o rendimento pela tabela regressiva (22,5% até 180 dias, 20% até 360, 17,5% até 720 e 15% acima disso). A explicação completa está no guia de imposto de renda na renda fixa.
- IOF: se você resgatar antes de 30 dias, também há IOF sobre o rendimento, que começa alto e cai até zerar no 30º dia.
- Taxa de custódia da B3: 0,20% ao ano, mas, no Tesouro Selic, valores até R$ 10 mil por CPF são isentos. Acima disso, a taxa incide só sobre o que passar de R$ 10 mil.
- Segurança: o pagamento é garantido pelo Tesouro Nacional. É considerado o investimento de menor risco de crédito do país.
Uma diferença importante para os outros títulos do Tesouro: o Tesouro Selic praticamente não sofre com a marcação a mercado. Prefixados e IPCA+ podem mostrar perda se vendidos antes do vencimento; o Selic, em condições normais, não. Por isso ele aparece tanto como opção para reserva de emergência.
Exemplo: R$ 10 mil por 12 meses
Vamos a uma conta concreta. Para simplificar, imagine a Selic em 13,75% ao ano (o nível de outubro de 2026) e parada nesse patamar durante os 12 meses. Na vida real a Selic muda a cada reunião do Copom, então trate os números como ilustração do método, não como previsão.
Tesouro Selic
- Rendimento bruto em 12 meses: cerca de 13,75%, ou R$ 1.375.
- Taxa de custódia: zero, porque o valor está dentro da faixa isenta de R$ 10 mil.
- IR de 17,5% (entre 361 e 720 dias): cerca de R$ 240,63.
- Saldo líquido: cerca de R$ 11.134, ou rendimento líquido em torno de 11,3%.
Poupança
- 0,5% ao mês por 12 meses: cerca de 6,17%, ou R$ 617.
- Somando a TR: a TR varia mês a mês. Se ela ficar entre 0,1% e 0,2% ao mês, o rendimento anual sobe para algo entre 7,5% e 8,7%.
- Sem imposto de renda.
- Saldo: entre cerca de R$ 10.617 (sem TR) e R$ 10.874 (com TR de 0,2% ao mês).
Mesmo descontando o IR do Tesouro e somando uma TR generosa à poupança, a diferença no cenário acima fica na casa de R$ 260 a R$ 520 em um ano para cada R$ 10 mil. Com Selic acima de 8,5%, o Tesouro Selic tende a render bem mais que a poupança depois de impostos.
E em prazos curtos?
Aqui a conta muda um pouco, e vale olhar com calma:
- R$ 1.000 por 20 dias: na poupança, sem passar pelo aniversário, o rendimento é zero. No Tesouro Selic, o rendimento bruto seria de uns R$ 7, mas o IOF come cerca de um terço e o IR de 22,5% leva mais um pedaço. Sobram uns R$ 3,70. Pouco, mas ainda é mais que zero.
- R$ 1.000 por 1 mês: a poupança paga R$ 5 mais a TR. O Tesouro Selic rende algo como R$ 10,80 bruto, já sem IOF, e uns R$ 8,40 depois do IR.
Ou seja: com a Selic nesse nível, o Tesouro Selic costuma ganhar até em prazos curtos. A vantagem da poupança não está no número.
E se a Selic cair para 8,5% ou menos?
Aí a poupança passa a pagar 70% da Selic mais TR, sem IR. O Tesouro Selic, depois do imposto, entrega de 77,5% (prazos até 180 dias) a 85% (acima de 2 anos) da Selic, menos a custódia sobre o que passar de R$ 10 mil. A distância fica bem menor, e em prazos curtos, com uma TR positiva, a poupança pode ficar praticamente empatada. É por isso que essa comparação não tem resposta fixa: ela depende do nível dos juros.
Lado a lado
| Poupança | Tesouro Selic | |
|---|---|---|
| Rendimento | 0,5% a.m. + TR (Selic > 8,5%) ou 70% da Selic + TR | Acompanha a Selic |
| Quando rende | Uma vez por mês, no aniversário | Todo dia útil |
| Imposto de renda | Isenta para pessoa física | Tabela regressiva (22,5% a 15%) |
| IOF | Não | Sim, só em resgates antes de 30 dias |
| Custos | Nenhum | Custódia de 0,20% a.a. só acima de R$ 10 mil |
| Garantia | FGC, até R$ 250 mil por CPF por instituição | Tesouro Nacional |
| Resgate | Imediato, no app do banco | Mesmo dia útil se pedido até 13h |
| Onde aplicar | Qualquer banco | Corretora ou banco habilitado no Tesouro Direto |
Quando a poupança ainda faz sentido
Com a Selic alta, a poupança perde na conta. Mas investir não é só conta. Há situações em que ela ainda tem seu lugar:
- Simplicidade total. Para quem ainda não tem conta em corretora e está dando o primeiro passo, guardar na poupança é melhor que deixar o dinheiro parado na conta corrente sem render nada.
- Valores muito pequenos. Em quantias de poucas dezenas de reais, a diferença em reais entre as duas opções é pequena. O hábito de guardar vale mais que a otimização.
- Dinheiro que entra e sai no mesmo dia. Se você precisa de acesso imediato em fim de semana ou feriado, o resgate da poupança no app do banco é instantâneo. O Tesouro Selic só liquida em dia útil.
- Selic em 8,5% ou menos. Nesse cenário, a isenção de IR deixa a poupança bem mais competitiva, principalmente em prazos curtos.
Vale lembrar que a escolha não é só entre esses dois. CDBs de liquidez diária que pagam 100% do CDI ou mais, por exemplo, também competem pelo mesmo espaço. O guia de liquidez, isenção e prazo ajuda a comparar essas alternativas.
Quando o Tesouro Selic faz mais sentido
- Reserva de emergência que vai ficar parada meses ou anos, com resgate possível em dia útil.
- Dinheiro de objetivos de curto e médio prazo (uma viagem, a entrada de um carro) que você não quer expor à oscilação de preço.
- Selic acima de 8,5%, quando a poupança fica presa em cerca de 6,17% ao ano mais TR.
- Quem já tem conta em corretora e não tem custo extra para operar no Tesouro Direto.
Erros comuns
- Sacar da poupança um dia antes do aniversário. Você perde o rendimento do mês inteiro daquele valor.
- Achar que o Tesouro Selic “pode dar prejuízo” como os outros títulos. Em condições normais, ele não sofre a marcação a mercado relevante dos prefixados e IPCA+.
- Comparar a poupança com a Selic bruta. O Tesouro tem IR. Compare sempre o valor líquido no seu prazo.
- Esquecer que regras podem mudar. As regras da poupança, as alíquotas de IR e as taxas do Tesouro Direto já mudaram no passado e podem mudar de novo. Confira as condições vigentes antes de aplicar.
Resumo
A poupança rende 0,5% ao mês mais TR quando a Selic está acima de 8,5%, e 70% da Selic mais TR quando está igual ou abaixo. Ela é isenta de IR, mas rende só no aniversário mensal. O Tesouro Selic acompanha a Selic, rende todo dia útil, tem IR pela tabela regressiva e custódia zero até R$ 10 mil. Com juros altos, o Tesouro Selic tende a vencer com folga mesmo depois do imposto. Com juros baixos, a distância encolhe e a simplicidade da poupança pesa mais.
Se você está montando a base, volte ao Comece aqui, leia o guia de renda fixa e use o texto sobre IR na renda fixa para transformar qualquer taxa em valor líquido antes de comparar.
Quer se aprofundar? A lista de livros para começar a investir sugere uma ordem de leitura que passa pelo hábito de poupar e pela renda fixa.
Este conteúdo é educativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões sobre aporte, resgate ou alocação são de sua responsabilidade; rentabilidade passada não garante resultados futuros. Regras de rendimento, tributação e taxas podem mudar — confirme as condições vigentes e o material do produto antes de investir. Leia o Aviso Legal.